The King of Dragons

Bons tempos da Idade Média: cidades saqueadas, virgens defloradas, feudos onde o pau comia solto, reis e barões picaretas que não valiam um traque, papas e bispos pedófilos que nem o Diabo, castelos caindo aos pedaços, a Igreja mandando e desmandando na vida da gente, mulheres peludas que não tomavam banho nem em Domingo de Páscoa e a nossa querida Santa Inquisição promovendo matanças desenfreadas e hereges assando na fogueira alegres festivais de confraternização entre o povo amigável e feliz. Um tempo bom que não volta mais. Não é à toa que a época medieval é o cenário preferido dos jogadores de RPG, com seus orcs, dragões, elfas de sovaco depilado, goblins, trolls, minotauros e ornitorrincos de duas cabeças, pois no tempo da espada e da magia todo mundo era forever alone e ainda ia pro céu!

RPGs tradicionais e videogames sempre combinaram tão bem como arroz, feijão, farofa, bife e ovo frito no PF; no final, dava uma baita indigestão, especialmente os de ambientação medieval: tivemos desde adaptações diretas do D&D até crássicos que beberam na fonte como Final Fantasy, Dragon Quest, Baldur’s Gate, Demon’s Souls, Elder Scrolls e até o endiabrado Diablo. Isso para ficarmos só nos RPGs amarelentos de turno e história lacrimosa e nos dungeon crawlers que fazem a alegria dos micreiros. Um belo dia, no longínquo ano de 1991, a Capcom, softhouse famosa por promover brigas de rua, mais mercenária que vendedor de água no deserto, fez uma mistureba de primeira: beat’em up e RPG medieval com guerreiros, elfos, clérigos e qualquer CRASSE de personagem que você encontrava naqueles livrinhos manjados que vinham de brinde na Dragão Brasil. Eis que nasceu The King of Dragons, um jogo monarquista e que se preocupava com a extinção dos dragões e seus impactos no ecossistema da Terra Média.

E não é que a misturança desceu bem, sem precisar de Sonrisal nem de chá de boldo?  Por isso, orgulhosamente o FZD vai resenhar aquela máquina veiaca ali, debaixo do xaxim da samambaia seca, entre o Brasílias & Calangos, ops, Cadillacs & Dinosaurs e o Golden Axe, QUE NÃO JOGO DE HE-MAN, PUTA QUE PARIU, MAS CÊS TÃO QUERENDO ME DEIXAR LOUCO, É??? Pegue sua espada de plástico comprada no camelô, vista sua armadura de papelão, pegue seu grimório de mulé pelada de magias, seu cajado (mas com jeitinho), monte no seu jumento com febre aftosa seu garboso corcel puro-sangue e escale as torres mais perigosas, explorando as mais sombrias masmorras, porém cuidado: é bem capaz que a princesinha no fim da jornada seja um dragão.

PENDURE NOS PENTELHOS CABELOS DA RAPUNZEL E VAMOS LÁ QUE VAI COMEÇAR A BAIXARIA A AVENTURA!!!

Era uma vez um gato xadrez…

O reino de Malus vivia um período de prosperidade e harmonia, mais pacífico que a Faixa de Gaza em feriado de Carnaval. Porém, logo o aquecimento global e a crise financeira chegaram ao pequeno reino e a VEJA de domingo anunciou: tá todo mundo ferrado na mão do dragão vermelho Gildiss, a besta-fera do jogo, mais perigoso que cachorrinho chihuaua que não tomou vacina contra a febre amarela, e sua horda interminável de orcs coloridos, esqueletos, zumbis, goblins, fantasmas, ciclopes (epa, mas o jogo dos X-Men é outro!), hárpias, wyverns, aranhas e chupacabras, dentre outros monstros. Como naquele tempo ainda não tinha inventado robôs gigantes e a Rede Manchete não passava os seriados japas na região do reino (culpa da programação regional!), a solução foi correr até a taverna mais próxima e convocar o primeiro grupo de heróis que estivesse dando sopa. Com um método infalível e irrefutavelmente racional: PORRADA! Vamos a eles, a esses nossos cinco heróis destemidos, cujas identidades foram preservadas de tanta vergonha após participar desse game de aventura:

Warrior: o guerreiro especializado na boa e velha força bruta, mestre nas técnicas do dedo no olho, chute no saco, bolada no queixo e xingamento de mães alheias. Pra quem gosta de esmagar os botões sem se importar com a defesa. Um antepassado remoto de nosso considerado Kratos.

Wizard: professor fugido duma escola de idiomas que é especialista em magias, feitiços, quebrantes, olho gordo, macumba, catimbó e mandingas diversas. É o fracote da turma, embora seu cajado lance bolas de fogo com um bom alcance, capaz de sacanear chefes mais apelões. Mas, como todo bruxo de RPG, nem reza brava e novena pra São Snake do Quixeramobim salva o mago do jogo de ser massacrado pelas legiões de monstrengos.

Elf: o representante da minoria élfica a ocupar a cota para elfos do game. Um arqueiro meio fracote mas rápido que nem um Fusca queimando óleo, com um arco que joga flechas até pra fora da tela do fliperama. Ótimo para enfrentar chefões de longe, sem sujar as mãos e nem perder energia na barra de sanguinho, posando de bonzão pros maloqueiros do flíper. O preferido deste blogueiro pra fazer suas presepadas.

Cleric: BENZA DEUS! O padreco musculoso do game é forte que nem um touro brabo depois de comer muito feijão com farinha, mas é leeeeeeeeento. Mas ainda bate um bolão pros amantes dos personagens porradeiros que não curtem jogar com o Warrior. Além de recolher o dízimo, rezar missa, tirar o capeta do corpo e fazer a alegria das madres solteironas, o clérigo também é o que tem as melhores armas, como maças, martelos, marretas e outras. O terror da diocese!

Dwarf: o anãozinho com pinta de viking. Ruim que dá dó, precisa a todo mundo pular pra acertar o inimigo na cabeça. Aliás, você já viu algum jogador de The King of Dragons pegar ele pra detonar o game? Não? Nem nós! Especialistas procurados pela reportagem (os loroteiros ali que juram que dá pra jogar com o Goro no primeiro MK com um truque que só eles sabem) garantem que, após o término do jogo e a derrota de Gildiss, Dwarf foi demitido da Capcom numa reestruturação interna da empresa e foi fazer propaganda da Prestobarba.

Escolhendo uma dessas figuras anônimas, eis que você terá que atravessar o reino de Malus atrás do dragão vermelho, passando por ruínas antigas, montanhas sombrias, florestas encantadas, navios vikings e muitas masmorras abarrotadas de tesouros e espectros. E acredite: SERÁ MUITO FÁCIL!

A incrível jornada por mares nunca dantes navegados!!! UUUUUUÓÓÓÓÓÓ!

Será com esse grito ridículo de quem está com dor de garganta e sofre de prisão de ventre que você começará todas as fases, ressuscitará seu personagem após perder uma vida ou um Continue ou quando você subir de level. Sim, como em todo bom RPG de meia tigela, em The King of Dragons você subirá de nível acumulando pontos de experiência ao matar chefões e inimigos e de recolher dinheiro e pedras preciosas, aumentando a força de seus ataques, a barra de sanguinho ou restaurando parte do life. Mais original que isso só reality show do SBT!

Além dos sacos de dinheiro (que pipocam a cada inimigo morto ou barril detonado, e como o game não tem nenhuma lojinha de itens, só conta pro EXP e pro score. Ê, Capcom, quem te viu, quem te vê…), você contará com as frutas que restauram a vida, como maçã verde, uvas e até BANANAS! Pô, não tem fruta do conde? Não tem graviola amarelada da Serra da Canastra? Não tem sapoti azul com bolinhas verdes? Não tem laranja quadrada mexicana do nordeste da Malásia? Pô, Capcom, já começou o miserê, hein, muxibando frutas pra rapaziada gamer geração saúde estragada! Além disso, temos as pedras preciosas, como diamantes, opalas, ametistas e gemas diversas que dão uns pontos a mais. Ao matar um chefão e avançar na história, um baú vindo do céu te dá uma arma, um escudo ou uma peça de armadura novos (HEIN??), legítimo milagre de Roque Santeiro que o Padre Quevedo diz que nón ecziste. Mas cuidado com os baús, pois alguns deles soltam um feitiço congelante que te ferra a vida, um presentinho de Sub-Zero pra você!

Isso tudo o ajudará nessa loooooonngaaaaaaa estrada da vida, porque The King of Dragons tem nada menos do que 11 FASES! 11 estágios e 11 chefões num beat’em up pra fliperama? UAU, EU ESCUTEI A AGULHA CAINDO DO OUTRO LADO DA DUNGEON, DIGO, DA SALA!!! Mas, por sorte, são fases curtas e bem rápidas, nada daquele mundaréu interminável do Sengoku. Atravesse a floresta dominada pelo Rei dos Orcs, a fortaleza em ruínas habitada pelo terrível minotauro Touro Bandido, campeão nos atropelões (mais um pouco e ele, junto com Rolento o Chefão Nojento, poderiam fazer dupla de apelões do Marvel vs Capcom), as montanhas, a caverna da terrível hidra, o navio viking (uma fase com apenas uma tela e sem chefão), a torre do horrendo ciclope cosplayer do Manowar (rejeitado pelo Professor Xavier nas peneiras pra turma dos Xis-Men) e, quando você já está cansado, as mãos suadas, atrasado pra escola, morrendo de vontade de mijar, eis que vem a fase do bosque infestado de aranhas, os dois estágios do castelo e, PIMBA, no final da nona fase você descobre abestalhado que a Princesa Mari foi raptada pelo dragão vermelho e toca correr lá o herói pra salvar o cabaço a donzelice da pequena. Aí você vê no mapa que falta ainda um puta trecho até o castelo de fogo de Gildiss! CAI FORA, MACAUBAL! Mais um pouco e vira um MMO!!!

Porém, na pior das hipóteses durante “árdua” caminhada, você poderá com as incríveis magias de tela inteira! Sim, elas estão de volta! Morda-se de inveja Streets of Rage e seu carro de polícia com estrovenga incrementada! Elas vêm numa espécie de bolha de sabão que você fica empurrando pela tela (e, num ataque de noobice, você sempre deixa elas escaparem!): a de fogo queima a tela toda (duh!), a de relâmpago faz cair uma chuva de raios, a de estrela causa uma chuva de meteoros (de Pégaso???) enquanto a que tem a cara de sapo transforma todos os inimigos da tela em simpáticos batráquios cururu. Opa, aí sim a gente viu vantagem! Por ter deixado nesse jogo essa magia tão estapafúrdia nossa querida D. Capcom Fazemos Qualquer Negócio é uma pessoa subjestivamente qualificado, uma softhouse retombante e cabriocárica, que merece nosso respeito tecnológico, que veio de nada e hoje não tem porra nenhuma também!

Mas, afora essas frescuras, The King of Dragons diverte e faz passar uma hora, embora seja muito fácil para os padrões dos fliperamas. Mas não só de Demon’s Souls vivem os games. E EU TÔ AVISANDO: O PRIMEIRO QUE FALAR QUE THE KING OF DRAGONS É O JOGO DA CAVERNA DO DRAGÃO VAI APANHAR DE CINTA NA BUNDA!!!

Resuminduuuuuuuóóóóóóóó!!!!!

Um pequeno exercício da Capcom que acabou se tornando um gamezinho divertido e viciante. Apesar do número absurdo de fases e da dificuldade descalibrada de alguns chefões (vide o minotauro corno ou seria o corno minotauro?) e um certo marasmo lá pro final que vai enchendo o saco (do verbo chefes e subchefes repetidos e de cores diferentes), dá pra detonar The King of Dragons numa tarde de boa, no aconchego do fliperama ou no seu lar no SNES, depois de você brincar um pouquinho no site do RedTube.

Se você perder uma vida, não chore como um noob e solte o grito de guerra dos nossos heróis sem nome: UUUUUUUUUUÓÓÓÓÓÓÓ!!! Para estragar a tarde de Tibia de seus vizinhos.

Curiosidades Curiosas:

– The King of Dragons foi adaptado pro Super Nintendo em 1994 e até então, tirando as coletâneas safardanas, é a única versão pra consoles domésticos. Mudam algumas coisas só: os Continues são limitados, só se pode jogar em até dois jogadores ao contrário da máquina que comportava três e os level up recarregam toda a energia. Tem até truque pra Continues infinitos e pra jogar com dois personagens iguais. E qual é o truque? Dá uma fuçada nas revistas velhas no fundo do armário que você acha!

– Referência a Golden Axe, NEM ME FALE DE JOGO DO HE-MAN, SACRIPANTAS: em algumas fases aparece aleatoriamente um ladrão com um saco nas costas e, caso você o golpeie, ele deixe um saco de dinheiro no caminho. Até a roupa é igual; mas porque será que ele é mais alto que no jogo do He-Man, Tio Zé? AHHHHHHHH, MOLEEEEQUEEE, é porque ele comeu muito arroz e feijão com abobrinha, se empanturrou de Farinha Láctea com espinafre e ficou fortinho!

– Esse é mais um dos games que possuem o Yashichi, um item típico dos jogos antigões da Capcom: um círculo com uma cruz no meio, muito raro e que geralmente te dá uma vida ou um Continue extra. E você pensa que vai encontrá-lo durante sua jogatina aqui no fliperama? POBRE MORTAL! Procura no Mercado Livre que é mais fácil achar um usado!

– The King of Dragons foi a principal inspiração para os excelentes Dungeons & Dragons: Tower of Doom e Dungeons & Dragons: Shadows over Mystara, verdadeiros RPGs de fliperama como nunca se viram. Ele também deu uns pitacos nos bons Dynasty Wars I e II, beat’em ups restritos ao mercado comedor de sushi oriental.

– NUNCA, NUNCA, NUNQUINHA MESMO um espírito de porco da Capcom Muxiba teve a ideia de expandir o universo de The King of Dragons e de transformá-lo num MMORPG! Ufa, sangue de Shao Kahn tem poder!

E vamo nóis! Ao final da aventura, depois de ver seu tesouro ser taxado pela alfândega, ser obrigado a dar um banho, cortar os cabelos do sovaco e as unhas do pé da princesa presa na masmorra e descobrir que todo mundo só joga Vampiro, você entenderá o sentido da frase “e foram felizes para sempre”.

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